Your Cart

Treino de cães em Portugal: Uma curta e final ponderação


Data: 27 de Julho de 2021

Como citar: Barata, R. (2021). Treino de cães em Portugal- Uma curta e final ponderação. Human-Animal Science.


Este texto é um complemento final a esta publicação.


Assisto com preocupação a uma crescente e perigosa desinformação na área do treino canino. O mais preocupante é que não vejo ninguém a tentar combater isso, mas sim a ignorar ou incentivar. Não sei se não o fazem por medo da inquisição canina e dos grupos onde estão inseridos, pela falta de conhecimento dos assuntos ou simplesmente por ganância.


Como eu considero esse nível de comunicação (não as pessoas) desonesta, e não me identifico minimamente com a vergonha do mundo dos cães actual e da cobardia dos ditos intervenientes em enfrentar o sistema, permitam-me umas rápidas palavras porque não vou debruçar-me novamente sobre este assunto. Ando a fechar algumas etapas cansativas da minha vida, e esta sem dúvida é uma das principais. A minha missão continuará a ser para com os animais (não humanos) e as suas famílias humanas, não para ser aceite dentro de grupos ideológicos de “amigos”, ou ter likes e partilhas com textos alegóricos ou hashtags.


Ao longo deste tempo publiquei artigos a clarificar conceitos básicos a combater a desinformação em determinados assuntos, com referências científicas a reforçar a minha argumentação, e mostrar aos clientes e profissionais como conceitos básicos são desprezados e manipulados. Tento igualmente contribuir com questões desconfortáveis ao separar a ciência e a moralidade de forma a incentivar o pensamento crítico individual de forma a nos tornar-nos melhores profissionais e, como consequência, pessoas.


Tentei ainda alertar de como um pequeno grupo de amigos na medicina veterinária que se auto-intitulam de “especialistas”, e usam outros termos interessantes, tais como “etologia clínica” (um oxímoro por definição), como se apenas essa pequena classe tem o poder absoluto sobre os assuntos de comportamento animal, algo que claramente mostra o interesse de um pequeno grupo para o monopólio dos assuntos relacionados ao comportamento canino e uma agenda ideológica que cuidadosamente se separa dos grupos de animais de produção. Curiosamente, somente no mundo dos cães e em Portugal com o síndrome dos “doutores”, vemos esse pequeno grupo de amigos a limitarem não apenas especializações de comportamento animal à medicina veterinária como também monopolizarem o termo de “especialista” a indivíduos com doutoramento ou a reconhecimentos de associações onde esse pequeno grupo participa. Seria cómico se não fosse uma realidade.


A bolha está a formar-se desde a lei das raças PP que, por coincidência, ninguém fala ou discute, mesmo a nível político, que resumem o seu discurso a medidas proibitivas como o caminho mais fácil, mesmo depois de um grupo de trabalho em 2017 tentar criar condições para uma formação séria e mostrar que a educação é muito mais eficaz do que uma proibição. Os poucos que ainda tentam fazer algo, são ignorados por não seguirem a corrente. Esse rastilho está a ser um jogo de interesses que se arrasta por mais de 15 anos. Isto juntando a outros tópicos que incansavelmente venho reportando, auxiliando pro bono instituições e iniciativas sempre que possível, e o resultado é sempre o mesmo: jogo de interesses, a necessidade de protagonismo, acreditarmos no que nos conforta e o preenchimento da falta de auto-estima com likes.


Sim, a linguagem utilizada importa e mostrar na prática de que é possível fazer a diferença. Não é demagogia. É tudo uma questão de atitude. Atitude essa que leva tempo a mudar e exige uma auto-disciplina, coerência e um constante desafio ao nosso pensamento crítico. O conhecimento técnico deu lugar a diplomas e certificados de agendas ideológicas, algumas camufladas em nome da diplomacia, e ao politicamente correcto. 


Quando confrontados, a desculpa é sempre a mesma: "É o que sempre se usou", ou “os clientes não entendem”. 


Como profissional, eu faria uma longa reflexão se esta é de facto a minha área de competência no dia em que eu não for capaz de explicar e clarificar conceitos básicos da minha área aos clientes, e preferisse utilizar semântica e etiquetas para aquilo que eu faço mesmo que não correspondam à realidade. Não seria preocupante se não estivéssemos a lidar com outras vidas e ainda cobrar por isso.


A palavra “ciência” tem sido usada e abusada em contextos onde ela própria contraria as afirmações dos intervenientes. É impressionante e desconcertante o desconhecimento de termos básicos que, quando não roubados de outras áreas científicas, são deturpados e rapidamente criam ainda mais confusão nas redes sociais, sob uma argumentação que visa o apelo às emoções e não à passagem de conhecimento ou a qualquer tipo de lógica.


Estamos a falar de seres vivos que necessitam de serem respeitados na sua essência e o devido estudo, reflexão e discussão de várias perspectivas deve ser efectuado. A ciência não é perfeita ou um resultado final, mas sim um processo. E está muito menos avançada quanto a ciência do mundo dos cães. O mesmo aplica-se aos autodidactas (termo leigo e perigoso quando temos uma influência directa na vida e destino de outro ser) e a todos os que promovem "estudos científicos" sem o mínimo de pensamento crítico na sua análise, e sim porque vai de encontro às suas agendas. Desculpem o "meu Francês", mas ando farto de ver a ciência a ser uma prostituta de interesses próprios e sem o mínimo de questionamento dos ditos profissionais e mesmo cientistas.


Ao utilizarem a ciência em assuntos subjectivos para tentarem suportar as vossas ideologias, estão a fazer um desserviço ao real processo científico e a descredibilizar cada vez mais uma actividade transformada em marketing e aparências públicas sob formas de associações e outros, resultando na promoção e boom de indivíduos sem o mínimo de competência para actividade e muito menos para comunicar com as famílias e os seus cães.


Recordo-me de duas palestras que dei em 2017, uma no Porto e outra em Lisboa, onde mostrei claramente que as etiquetas de “100% force-free”, “não usamos castigos”, “educação amável porque castigos não funcionam”, e similares, são enganadoras tanto para os clientes como para quem os utiliza para a promoção dos seus negócios. Esses profissionais também usam castigos e aversivos na sua definição técnica embora não o assumam. Por outro lado, também mostrei que quem diz que usa correções na verdade utiliza coerção e, em alguns casos, violência. Ninguém tentou argumentar o contrário perante os factos apresentados, esses sim científicos e disponíveis para qualquer pessoa proactiva. E com preocupação vi a surpresa de alguns ao descobrirem isso. Este é um exemplo de muitos ao longo da minha carreira e sempre estive, estou, e estarei disposto a ter uma discussão saudável ao vivo (broadcast nas redes sociais) e sem guiões com todos os que possam discordar disso.


É um caminho longo e aquilo que faremos é somente deixar as sementes para as futuras gerações. Para se trazer seriedade a uma possível profissionalização da actividade é necessário apostar nos profissionais nacionais e deixarmos a tendência medíocre de somente olhar para os de fora, onde a realidade é diferente e muitas vezes a própria cultura não permite absorver a essência do conhecimento passado.


Caberá a nós decidir o que queremos ser e termos a honestidade de o assumir. De momento só vejo duas alternativas: 


1- Continuar a inundar o público com discursos politicamente correcto e informação que não corresponde à realidade, embora o nome da ciência seja usado de forma leviana e irresponsável, ensinar alguns truques e seguir um checklist ideológico que tem respostas certas para tudo, como se a vida fosse dessa forma. Resumidamente: Serem hipócritas. 


2- Sairem da nossa zona de conforto, sermos coerentes nas nossas acções e partilhar um conhecimento real às pessoas, clarificar o que for necessário e mostrar na prática alternativas adaptadas aos indivíduos e que farão a diferença nas suas vidas. 


A decisão aos pontos acimas é individual. Já a consequência dessas decisões afetará directamente a qualidade e a própria vida de uma outra espécie. Tanto no real, como no virtual.


Espero que as possíveis provocações aqui escritas vos façam reflectir fora da bolha, e que a mentalidade actual seja desafiada. Já viram quem são as vítimas. Vítimas essas que eu sempre menciono. Só lamento por elas, de terem sido condenadas há milhares de anos à servidão dos nossos caprichos e vontades. E mesmo com essas aprendizagens históricas, continuamos a utilizá-los como meros objectos de marketing ou de ideologias, sejam elas de lado for.


Por aqueles que sempre se esquecem quando entram na luta de egos, protagonismo e likes: Os cães e as suas famílias humanas. Esses sim, os nossos professores e influenciadores. As verdadeiras vítimas desta desinformação.


Caberá agora a vocês olharem para isso e fazerem o vosso papel de dignificarem uma actividade tão importante e ao mesmo tempo tão banalizada, explorada e abandonada. Quando o medo de abrir-se a caixa de Pandora do mundo dos cães for menor do que a vontade de mudança, irão confirmar que nesta equação os animais são meras peças de xadrez. Caixa de pandora essa que é alimentada pelo silêncio dos profissionais ao verificarem que isso pode prejudicar o seu negócio ou a sua percepção de protagonismo.


Não têm de ser a voz deles, apenas têm de aprender a ouvi-los. Nesse dia, quando a voz humana se calar em prol do que eles tanto nos dizem, haverão mudanças. A voz humana carrega ideologias, a voz dos não humanos mostra a essência e as necessidades naturais que eles tanto precisam. Ouvir e observar. Certamente as ações dos profissionais da área e das autoridades tanto judiciais como políticas fossem diferentes e alguns disparates prevenidos.


Sejam honestos, coerentes e proactivos. Esse é o segredo da "tal" mudança.