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Proibição de materiais de treino em Portugal: Uma análise crítica


Data: 6 de Fevereiro de 2024

Como citar: Barata, R. (2024). Proibição de materiais de treino em Portugal, uma análise crítica. Human-Animal Science.


Nota do autor: Esta publicação é uma análise crítica ao assunto abaixo e não reflecte a opinião ou escolhas do autor, a não ser que seja devidamente mencionada, e não se destina a apoiar ou criticar temas ou indivíduos específicos. É também essencial compreender que todas as análises críticas apresentadas são estritamente direccionadas para o conteúdo dos estudos ou textos e não para os seus autores. Esta abordagem assegura uma abordagem profissional e objectiva do material, mantendo um discurso académico respeitoso e rigoroso.


Introdução

Não será novidade eu afirmar que o mundo do treino canino vive numa polarização que considero perigosa. A emoção fala mais alto do que a razão ou do uso das habilidades cognitivas individuais para que, em conjunto, se consiga fazer um mundo mais respeitoso. Os “estudos científicos”, cada vez mais monopolizados e reféns de financiamento externo, reflectem um padrão activista crescente nesta área mais visível desde 2003, altura essa que a indústria pet teve um boom contínuo e a maioria dos estudos contraditórios e diversificados começou a desaparecer, existindo apenas um lado de uma estranha ciência, onde nada se pode questionar sem que sejamos “cancelados” ou classificados como um dos extremos. Aliás, a imagem abaixo comparativa com a indústria farmacêutica mostra uma interessante correlação, principalmente se considerarmos que tudo agora é um “problema de comportamento” e para tudo é preciso um gadget, um comprimido ou um producto.

Este padrão de se falar de estudos científicos sem sequer os lerem deve-se à complexidade que os mesmos possam ter para a maioria das pessoas, fazendo com que acreditem simplesmente no que os “profissionais” possam dizer, o que tenho a certeza que também não os lêem por completo ou fazem uma análise crítica, reforçando a preguiça que as redes sociais nos habituaram de textos rápidos já filtrados e coloridos, uma mão cheia de nada que gostamos e partilhamos com o que vai de encontro às nossas crenças sem sequer ler a fonte original ou ter um mínimo de proactividade sobre os assuntos.


Já tinha afirmado em publicações anteriores que iria deixar de comentar assuntos referentes a Portugal, não apenas porque já não moro aí devido à saturação da situação da área dos cães nessa altura, depois de tantas batalhas perdidas de projectos necessários e confirmar a verdadeira índole das instituições e indivíduos, mas também porque me entristece o completo desleixo e silêncio ideológico na área em prol de uma diplomacia demagoga, interesseira e de marketing que, na minha opinião, está a neglicenciar os cães e as suas famílias humanas de tal forma que conseguiram criar a ideia de que o cão é um ser indefeso apenas limitado a stress, medo ou ansiedade (ou ao supérfulo termo “reactivo”), que classifico como o “síndrome do coitadinho”. Um problema foi criado através da manipulação em massa e lavagem cerebral sobre alguns assuntos para se vender uma “solução”.


No entanto, vejo-me quase na obrigação de abordar a recente proposta do PAN aprovada na assembleia e que ainda carece de discussão entre os partidos antes da aprovação de um documento final. Uma das razões de eu o abordar deve-se a este assunto fazer parte de outro projecto que estou a trabalhar. Isto tudo para dizer que não pretendo alongar-me mais sobre este assunto em concreto depois desta publicação. Vou também abordar este assunto não porque concordo ou uso os referidos materiais, mas sim para mostrar que devemos separar ideologias de profissionalismo quando estamos a lidar com seres vivos. Não é de hoje que abordo assuntos de forma crítica, como pode ser comprovado para quem segue o meu trabalho.


Também não é de hoje que levanto questões incómodas e sou contra quaisquer proibições como o caminho mais fácil. A educação e a partilha de conhecimento real aplicado na prática e o estímulo do pensamento crítico é o caminho. Tenho a plena convicção de que se material ou método A é comprovadamente na prática igual ou melhor do que B, o método B desaparecerá por se tornar obsoleto, como muitos já desapareceram ao longo destes anos independentemente de “estudos”. 


Por vezes leio os defensores destas leis, que se intitulam profissionais da área, afirmarem que apenas a educação não é o suficiente. Isso demonstra uma visão limitada e uma falta de confiança no potencial transformador da educação e do conhecimento, ironicamente muito publicitada pelos mesmos indivíduos. Ignorar que a educação, quando bem estruturada e acompanhada de práticas reflexivas e críticas, pode promover mudanças profundas e duradouras, é subestimar a capacidade humana de evoluir e adaptar-se. Todas as sementes de conhecimento hoje plantadas, serão colhidas não apenas por esta mas por outras gerações. Além disso, essa mentalidade pode conduzir a uma dependência de imposições ideológicas, soluções imediatistas e superficiais (não só pelo oportunismo da indústria pet como também da veterinária e da tendência de medicação na sua maioria ineficaz, tal como apontada neste estudo em relação ao comportamento agressivo), que, a longo prazo, podem não só falhar em resolver os problemas fundamentais, mas também impedir o desenvolvimento de um pensamento crítico autónomo na sociedade.


Portanto, procederei com uma análise crítica, examinando tanto o conteúdo do documento principal quanto as referências citadas, não apenas para compreender a superfície do texto, mas também explorar as camadas mais profundas de argumentação e evidência apresentadas. Esse processo, que tentarei escrever de forma acessível a toda a audiência, visa assegurar uma compreensão abrangente e crítica do material, permitindo uma avaliação precisa e bem-informada do mesmo. As referências ao longo do texto serão um complemento a quem quiser aprofundar a sua pesquisa e, se assim o considerar, contra-argumentar o que escrevi.


Se por ventura não leu o texto inicial, esta análise não reflecte as minhas escolhas ou opiniões, com excepção da conclusão, onde eu também partilho a minha opinião sobre o assunto. Tive a oportunidade de trabalhar com todos os materiais e nas mais variadas situações ao longo de duas décadas, o que me permitiu delinear os meus passos e tomar as minhas decisões e limites onde os materiais em questão não fazem parte do meu trabalho. Não pela sua ineficácia, mas porque aprendi e desenvolvi métodos tão ou mais eficientes do que esses para a actividade que exerço.


Isso não me faz ser a favor ou contra. Eu sempre avaliei os custos e benefícios de cada decisão e as consequências a curto, médio e longo prazo. Não cabe a mim julgar as preferências e crenças de cada um. Defenderei sempre o direito à opinião, mesmo que eu discorde profundamente dela. Assim como a ciência não é uma “prova” ou “verdade” absoluta, mas sim um processo, o meu papel será o mais ingrato, o de mensageiro, o que me torna um alvo primordial da inquisição canina vigente, a qual não me intimida, porque, como estudantes eternos que somos, baseio-me em factos e pensamento crítico, não por crenças de grupos, slogans e frases feitas, ou uma utopia “disneyana”.


Proposta do PAN

O projecto de lei nº 456/XV/1.ª, apresentado pela representação parlamentar do partido Pessoas-Animais-Natureza (PAN), visa regulamentar a contenção e o treino de animais de companhia em Portugal. Especificamente, o projecto propõe a proibição da venda e uso de "coleiras de choque" e "coleiras estranguladoras", que são vistas como métodos de contenção e treino prejudiciais para os animais. O projecto argumenta que essas coleiras causam dor e sofrimento desnecessários aos animais, podendo levar a problemas físicos e comportamentais sérios, como agressividade e ansiedade.


Clique aqui para aceder à proposta.


Na introdução do texto, menciona-se a variedade da intensidade dos estímulos eléctricos como forma de controlo, mas não se apresentam dados concretos sobre os níveis de intensidade nem sobre a relação destes com o bem-estar animal. Embora se refiram os riscos e o potencial de causar lesões, a proposta omite detalhes de estatísticas nacionais ou de estudos que quantifiquem os incidentes ou lesões provocadas por tais dispositivos.


A seguir, uma análise mais em detalhe às frases e parágrafos da proposta com o meu comentário à frente em negrito:



“O uso da coleira pode causar lesões físicas ao animal”. Esta afirmação tem como referência por um post de opinião sem factos de uma instituição activista, como poderão comprovar ao clicarem AQUI. Onde estão referências acadêmicas onde claramente mostram as lesões feitas por esses materiais?


“Estudos realizados nos Estados Unidos na década de 1980 já revelavam que as “coleiras de contenção de latidos” se mostraram sensíveis a outros ruídos (que não o latido dos cães), acabando por resultar em queimaduras graves e outro tipo de lesões nos animais“. Onde estão as referências para essa afirmação? Não consegui encontrar nenhum estudo. Clique aqui e, caso encontre, entre em contacto para eu editar esta parte.


“Ora, esse tipo de coleiras, que são inegavelmente perigosas, encontra-se atualmente à venda em muitos estabelecimentos comerciais em Portugal, incluindo nas vendas à distância, de forma completamente livre e massificada, apesar dos constantes protestos de grande parte da população”. Onde estão os links que mostram os constantes protestos de “grande parte da população”? Eu só vejo referências baseadas noutros países e não há uma única estatística ou censo nacional sobre o assunto para suportar esta afirmação.


“O facto é que existem abundantes queixas de lesões efetivas nos animais, algumas delas graves, produzidas pelo uso deste tipo de dispositivos”. Onde estão as estatísticas ou referências para suportar tal afirmação?


“O uso destas coleiras, além de ser perfeitamente dispensável no processo de treino de cães, conforme maioritariamente afirmado por investigadoras, e treinadores e treinadoras de animais, podem provocar outras complicações, documentadas cientificamente e supra expostas, como medo, comportamentos agressivos, comportamentos obsessivo- compulsivos, deterioramento do relacionamento com a pessoa, extrema ansiedade, fobia ambiental, entre outros, não devem esses dispositivos incluir a opção dos choques elétricos”. Novamente, onde estão as estatísticas e referências com a documentação causal de tais comportamentos e com a evidência de que foram causados por esses materiais?


“Tal como vem sendo alertado por especialistas em treino de cães, a eficácia (na perspetiva do controlo) desse tipo de coleiras "estranguladoras" implica que as mesmas se devam tornar aversivas, isto é, que causem medo, desconforto ou dor, de forma a que o animal o queira evitar. Ou seja, esses dispositivos têm de causar dano ou dor para funcionarem, o que constitui uma evidência científica”. É fundamental para a integridade do debate garantir que as conclusões e propostas sejam sustentadas por um leque abrangente de evidências científicas que comprovam a casualidade de tais comportamentos com o uso de determinados materiais. Percebe-se que foi feita referência a 'especialistas em treino de cães' num único artigo de opinião (clique AQUI), o que certamente também contribui para a discussão. No entanto, para fortalecer a proposta e enriquecer o diálogo, seria necessário incorporar uma variedade mais vasta de estudos e perspectivas entre os diversos profissionais. Um espectro diversificado de referências e opiniões especializadas pode assegurar que as medidas propostas sejam robustas, bem fundamentadas e reflictam um entendimento em contexto real sobre o assunto. Uma abordagem equilibrada e bem documentada, especialmente com vídeos a demonstrar na prática e em contexto real com diversos cães possíveis alternativas aos materiais mencionados, inclusive nos casos de contenção, captura e de emergências, é importante para prevenir equívocos e para solidificar a confiança nas iniciativas apresentadas, assegurando que estas se fundamentam em dados factuais e análise criteriosa, em vez de se basearem puramente em apelos emocionais ou estudos previamente escolhidos, condenando as referências desta proposta a serem classificadas como viés de confirmação (confirmation bias). A inclusão de diversas perspectivas e a clareza quanto às fontes consultadas são elementos-chave que influenciarão o futuro da proposta apresentada.


“Ora, as “coleiras de picos” são evidentemente instrumentos perfurantes, já que se destinam precisamente a penetrar na pele do pescoço do animal”. 

Coleiras de picos, na sua função e definição, fornecem uma sensação desconfortável sem perfurar ou penetrar a pele do animal. Os picos são geralmente arredondados e não afiados, o que é uma característica importante que diferencia um objecto perfurante de um não perfurante. Se eventualmente existir perfuração, significa uma neglicência e crime por parte do indivíduo que a está a utilizar, já prevista no crime de maus-tratos a animais.


“Por sua vez, o n.o 3 do artigo 13.o do citado Decreto-Lei n.o 276/2001 impõe que, “quando houver necessidade de recorrer a meios de contenção, não devem estes causar ferimentos, dores ou angústia desnecessários aos animais”. 

Ou seja, já existe legislação suficiente (neste caso é o n. 5 do artigo 13 e não o número 3 como a proposta afirma) que possa tratar destas causas e que não são aplicadas na prática. Está-se a criar um poço de burocracia ideológica e uma sobrecarga desnecessária aos agentes fiscalizadores em vez de aperfeiçoar na prática a eficiência na fiscalização das leis já em vigor.


“Artigo 13, número 5 - Quando houver necessidade de recorrer a meios de contenção ou de treino, não devem estes causar ferimentos, dores ou angústia desnecessários aos animais”. Este é o artigo existente. A questão é, se esta proposta for realmente aprovada, que meios de contenção serão permitidos e como isso vai funcionar na prática e em contexto real? Onde estão os exemplos? O que é considerado “desnecessário” numa emergência ou em situações onde a vida tanto do animal quanto da pessoa estiver em risco?


“Artigo 13, número 6- É, designadamente, proibida a comercialização, detenção e/ou utilização de coleiras que impliquem ou possam causar dores, lesões e angústia desnecessários aos animais, tais como coleiras com dispositivos eletrónicos, destinados a provocar estímulos, choques e ou vibrações elétricas, bem como coleiras estranguladoras ou com picos interiores”. Esta é a proposta que querem adicionar à legislação já existente. Escrito desta forma vaga, podemos entender que todas as coleiras devem ser proibidas, porque todas PODEM tecnicamente causar dores, lesões e “angústia”(?) desnecessários. Detentores de cães causam desconforto desnecessário continuamente nos passeios por falta de ensino de ambos. Aparentemente os cães que estão sempre a puxar parece não ser o problema, mesmo com um estudo, imagine-se, do mesmo investigador que participa nos estudos que irei analisar abaixo, que mostra a maior tendência dos cães puxarem quando estão de peitoral (clique AQUI. Até as coleiras “normais” de pescoço diferem da força exercida durante os passeios (clique AQUI). Da mesma forma, existem coleiras com estímulos apenas de vibração para cães surdos ou cegos. Estão as mesmas incluídas, visto que a vibração é um estímulo? Quais são as alternativas? E os head halters? E os peitorais com a trela na frente? E as coleiras de spray que são defendidas por um grupo de veterinários que, curiosamente se dizem contra coleiras electrónicas mas convenientemente são a favor de cercas eléctricas, como podem verificar AQUI (Eu fiz um análise crítica a esse documento ideológico e com claros conflictos de interesse no meu livro).


Outra questão muito importante: Esta medida vai também abranger desportos no CPC (incluindo a condução dos cães nas exposições), os seus treinadores e treinos, assim como os treinos que eles fazem publicamente, os treinadores de raça PP, as forças militares e policiais? Ou será que essa caixa de pandora vai continuar fechada e o “bem-estar” só é aplicável aos cães que vivem fechados em casa?


Sobre os estudos mencionados

É importante salientar que para a proposta foram mencionados os dois estudos abaixo do mesmo investigador e da mesma instituição. Estes estudos foram financiados pelo Department for Environment, Food and Rural Affairs (Defra), que efectuou um financiamento total de £539,000 para essa universidade para usar como defesa na proibição desses materiais no Reino Unido, conforme pode comprovar aqui.


A Universidade de Lincoln, enfrentou críticas significativas por viés, principalmente com o estudo Efficacy of Dog Training With and Without Remote Electronic Collars vs. a Focus on Positive Reinforcement, com especialistas revelando falhas na metodologia e questionando a neutralidade dos pesquisadores.



Vou publicar os links abaixo (clique nos links para aceder) e, de seguida o resumo das inconsistências:


Em resumo, as principais inconsistências são:

  • Análise Estatística e Interpretação: O estudo usa Modelos Lineares Gerais (GLMs) focando em efeitos principais sem explorar interações, o que pode simplificar excessivamente dados comportamentais complexos e ignorar interações importantes entre variáveis.
  • Validade das Medidas: A dependência do estudo em medidas comportamentais específicas para avaliar a eficácia do treino pode não capturar completamente a natureza multifacetada do comportamento canino.
  • Experiência e Consistência dos Treinadores: A variabilidade e omissão na experiência dos treinadores e a aderência aos protocolos de treino podem introduzir inconsistências na entrega do treino.
  • Viés de Relato dos Donos: O estudo depende parcialmente de relatos dos donos para avaliar mudanças de comportamento, o que pode ser subjetivo e sujeito a viés.
  • Poder Estatístico e Tamanho do Efeito: O poder estatístico do estudo para detectar diferenças pequenas, mas significativas, nos resultados do treino não é explicitamente abordado.
  • Validade Externa: As configurações do estudo podem não replicar cenários típicos de treino do mundo real.
  • Controlo de Variáveis Confundidoras: O estudo tenta controlar várias fatores, mas a extensão em que outras variáveis confundidoras são consideradas não é totalmente elaborada.
  • Seleção de Amostra e Alocação de Grupo: Os cães foram alocados a grupos de treino com base em certos critérios, o que pode introduzir factores confundidores.
  • Definição Operacional de Eficácia do Treino: O estudo define eficácia do treino principalmente em termos de obediência e latências de resposta.
  • Fonte de Financiamento e Viés Potencial: O estudo foi financiado pelo Defra, o que poderia levantar questões sobre viéses potenciais como mencionado acima.
  • Generalizabilidade dos Resultados: Os resultados do estudo, baseados numa amostra e condições de treino específicas, podem ter uma generalização limitada.
  • Efeitos a Longo Prazo e Bem-Estar Comportamental: O estudo foca principalmente nos resultados imediatos do treino.


Já a revisão crítica que se encontra acima, menciona:

  • Inconsistências Metodológicas: Identifica inconsistências na metodologia que podem afetar a validade dos resultados.
  • Preocupações com a Análise Estatística: O artigo questiona as análises estatísticas usadas no estudo, sugerindo que podem não apoiar adequadamente as conclusões apresentadas.
  • Limitações de Design: Destaca limitações no design do estudo que podem impactar a confiabilidade dos achados.
  • Conclusões Exageradas: Argumenta que as conclusões sobre a eficácia do treinamento com coleira electrónica versus reforço positivo são exageradas, dados os problemas identificados.
  • Preocupações Éticas: Levanta considerações éticas sobre o uso de coleiras electrónicas, especialmente no treinamento de comportamentos agressivos em cães.
  • Necessidade de Métodos de Treino Humanos: Enfatiza a importância de métodos de treinamento eficazes e humanos no treino de cães.


Para o segundo estudo “The Welfare Consequences and Efficacy of Training Pet Dogs with Remote Electronic Training Collars in Comparison to Reward Based Training", as seguintes inconsistências foram encontradas:


  • Tamanho e Composição da Amostra: Embora razoável, o tamanho da amostra pode não ser suficiente para detectar efeitos subtis ou garantir que as conclusões sejam amplamente aplicáveis à população geral de cães, limitando a generalização dos resultados.
  • Uso de Métodos Paramétricos: A análise dos dados recorre a métodos paramétricos, pressupondo normalidade na distribuição dos dados, o que nem sempre se verifica, especialmente em estudos comportamentais.
  • Gestão de Comportamentos Raros: A análise excluiu comportamentos observados em menos de 10% dos cães, podendo negligenciar a importância de respostas comportamentais menos comuns, mas relevantes.
  • Controlo de Múltiplas Comparações: O estudo utiliza o método da Taxa de Falsas Descobertas para controlar erros Tipo I em múltiplas comparações, o que pode não ser tão rigoroso quanto outros métodos, aumentando a possibilidade de erros Tipo II.
  • Interpretação dos Níveis de Cortisol: O estudo interpreta os níveis de cortisol salivar como indicadores de stress. Embora comum, essa prática é complexa, pois o cortisol pode ser influenciado por diversos fatores e sua interpretação em termos de stress e bem-estar é intrincada, como esta meta-análise assim o mostra.
  • Generalização dos Resultados: A natureza específica da amostra canina e dos cenários de treino pode limitar a generalização dos resultados para todas as condições de treino ou populações de cães.
  • Variabilidade nos Protocolos de Treino: A presença de diferentes treinadores com métodos potencialmente variáveis, mesmo dentro do mesmo grupo, pode introduzir inconsistências na experiência de treino dos cães.
  • Mensuração e Interpretação de Indicadores de Stress: A utilização de medidas como níveis de cortisol salivar e observações comportamentais para inferir stress e bem-estar é complexa, podendo não refletir unicamente o impacto dos métodos de treino.
  • Viés do Dono na Entrevista: A percepção dos donos sobre a melhoria do comportamento é subjetiva e pode ser influenciada pelas suas expectativas ou viés em relação aos métodos de treino utilizados.
  • Fatores Ambientais e Contextuais: As condições ambientais e contextuais durante as sessões de treino podem influenciar as respostas dos cães e podem não estar totalmente consideradas na análise.
  • Implicações de Longo Prazo no Bem-estar: O estudo foca principalmente nos efeitos imediatos do treino, não explorando extensivamente as implicações a longo prazo do uso de e-collars versus métodos baseados em reforço (não recompensa) no comportamento e bem-estar dos cães.
  • Fatores Confundentes Potenciais: Variáveis como histórico de treino anterior dos cães ou temperamento individual podem não estar completamente controladas no estudo.
  • Análise Estatística e Interpretação: Os métodos de análise estatística e a interpretação dos resultados necessitam de escrutínio para identificar possíveis viéses ou erros.
  • Fonte de Financiamento e Viés Potencial: O estudo foi financiado pela Defra, um departamento do governo do Reino Unido. Embora a entidade financiadora tenha contribuído na concepção do projeto e fornecido feedback através de um painel de revisão independente, a equipa do projeto afirma que manteve o controlo sobre o desenho e a publicação dos resultados. Esta relação com um órgão governamental como uma fonte de financiamento relevante como menciono acima, pode suscitar questões sobre potencial viés, especialmente no que diz respeito ao alinhamento do estudo com interesses ou objetivos políticos, que se comprovou com a proposta de lei no UK para proibir os e-collars, sendo crucial considerar como essa fonte de financiamento pode influenciar a agenda de pesquisa e a interpretação dos resultados, principalmente quando as universidades e outras instituições estão reféns desse financiamento externo.


Discussão

No debate sobre o treino de animais, a questão das proibições de materiais ou métodos revela-se delicada e multifacetada. Longe de ser uma escolha binária, reflete a tensão entre a proteção dos animais contra práticas prejudiciais e o risco de uma regulamentação mal informada que possa restringir a eficiência e a inovação responsável na área.


A interdição de certos métodos ou ferramentas, embora possa ser motivada por preocupações legítimas com o bem-estar animal, corre o risco de simplificar uma questão complexa. Pode negligenciar o fato de que, nas mãos de profissionais competentes e éticos, diversas técnicas e instrumentos podem ser empregados de forma a promover o bem-estar do animal a longo prazo e alcançar resultados positivos. O problema, muitas vezes, não reside na ferramenta ou método em si, mas na forma de como, por quem, quando e porquê de serem aplicados, no contexto em que são utilizados e na individualidade do animal em questão.


Por outro lado, a falta de regulamentação ou uma permissividade excessiva pode abrir caminho para abusos e práticas desumanas, comprometendo o bem-estar dos animais e descredibilizando toda a comunidade de treinadores. Trata-se de um equilíbrio delicado, onde tanto a ausência quanto o excesso de intervenção regulatória podem resultar em consequências desastrosas.


É fundamental, portanto, que decisões sobre proibições ou regulamentações sejam fundamentadas em um entendimento aprofundado e matizado dos princípios de comportamento animal, orientadas por evidências científicas robustas, não por reações emocionais ou pressões de grupos com interesses particulares. Isso requer uma colaboração estreita entre treinadores, cientistas comportamentais, veterinários e formuladores de políticas, garantindo que qualquer regulamentação tenha como base conhecimento, experiência prática e um compromisso genuíno com o bem-estar animal.

Por exemplo, o que dizer dos estudos abaixo (que também contêm discrepâncias) que mostram eficácia no uso dos colares electrónicos? Esses já não devem ser considerados porque fogem das nossas crenças?



Outro exemplo é este documento sobre o assunto, onde o próprio Daniel Mills, investigador dos dois estudos mencionados na proposta, reconheceu o potencial uso indevido dos Electric pulse training aids (EPTAs), enfatizando a importância de considerar como abordar essa possibilidade. No entanto, também salientou que a evidência de uso indevido não é tão forte quanto às vezes é retratada. Mills comparou os EPTAs a ferramentas como martelos, sugerindo que, embora possam ser usados de forma prejudicial, isso não os torna inerentemente maus; é mais sobre a forma como são utilizados. A sua posição indica um apelo a uma perspectiva equilibrada sobre o uso dos EPTAs, reconhecendo tanto o seu potencial para uso indevido como os seus possíveis benefícios quando utilizados de forma adequada. Deveria este ponto do próprio investigador também ser descartado?


Ademais, é importante promover a educação e o treino contínuos dos profissionais da área, assegurando que estejam munidos do conhecimento e das competências necessárias para empregar todos os métodos e ferramentas de maneira ética e eficiente. Nota-se que os estudos referentes a metodologias ou materiais de treino não informam a certificação do treinador nem a sua experiência, abrindo um fosso preocupante no problema raiz, que é o conhecimento e a habilidade do treinador em trabalhar tanto na forma técnica como na comunicação com os detentores. A capacitação constante é chave para elevar os padrões de prática no treinamento animal, diminuindo a necessidade de regulamentações restritivas e possibilitando que os profissionais façam julgamentos informados e responsáveis.


O artigo intitulado "Training of dogs--legal assessment of the use of electric collars"discute a perspetiva legal sobre a utilização de coleiras electrónicas no treino de cães na Alemanha. Refere-se a um veredito do Tribunal Administrativo Federal Alemão, salientando que a utilização dessas coleiras é, em geral, proibida. O artigo sugere que as exceções a esta proibição devem ser cuidadosamente consideradas e apela a uma discussão mais aprofundada sobre este assunto para garantir o bem-estar animal. Clique aqui.


Este tema também suscita reflexões acerca da prerrogativa da possível neutralidade atribuída a entidades como clubes desportivos, treinadores de raças PP, bem como às forças de segurança e militares. Poder-se-ia indagar se, mediante formação adequada, os materiais em uso por estas instituições são automaticamente considerados legítimos. Caso afirmativo, questiona-se então a ausência de um debate mais profundo, com perspectivas divergentes, envolvendo questionamentos incisivos e desconfortáveis, entre os profissionais destas esferas. Caso negativo, então qual a razão desta proposta não os incluir? Por que razão se omite a possibilidade de que, independentemente das credenciais individuais, possa haver uma utilização inadequada dos materiais disponíveis, independentemente de quais possam ser? Esta utilização imprópria poderia culminar em consequências graves, como a instigação de violência, a prática de coerção ou, até mesmo, a ocorrência de negligências involuntárias.


A partir desta ponderação, emerge a necessidade de uma introspecção mais aprofundada sobre a ética e a responsabilidade intrínsecas às práticas destas entidades. Seria prudente questionar até que ponto a formação e as normativas vigentes são suficientes para garantir a integridade e a retidão na utilização dos materiais e no exercício das atividades pertinentes. O problema do uso incorrecto de ferramentas deve-se essencialmente pelo desconhecimento e/ou pela pressa em querer tratar apenas dos sintomas e “mostrar resultados” e não em explorar a verdadeira causa do problema.


Por exemplo, aqui na Dinamarca existe essa proibição de determinados materiais. Isso não inibe os detentores de cães de as encomendarem na Alemanha. O mesmo acontecerá em Portugal caso a proposta seja aprovada. Entramos novamente na discussão inicial da educação versus proibição. É raro, mas já encontrei vários detentores que nos contactaram e que estavam a usar esses materiais. Em vez de os julgar, condenar e usar o meu ego, dei-lhes a opção de demonstrar como trabalho com os comportamentos relatados em específico e dou-lhes a decisão final de escolherem o que preferem seguir. Desses casos raros, todos eles deixaram esses materiais, por verem que a minha alternativa era mais eficaz.


Seria proveitoso que a comunidade ampliasse os seus horizontes e saísse da zona de conforto. Torna-se enfadonho ver os conceitos fundamentais de aprendizagem e comportamento animal serem negligenciados em prol de ideologias ou disputas de ego. O nível de argumentação degradante de ambos os lados no debate atual também contribui para o problema, e nesse ponto ambos os extremos são cúmplices da situação actual.


O debate está frequentemente centrado em indivíduos ou métodos específicos A ou B, ignorando que todos os treinadores tecnicamente recorrem a reforços, inibidores e aversivos, conforme definidos cientificamente, mesmo que neguem ou utilizem diferentes terminologias ou desculpas. Este é um fato amplamente reconhecido na literatura científica e acessível a quem procura entender além da argumentação das redes sociais.


Frequentemente, a abordagem ao comportamento humano e animal encontra-se limitada à dualidade simplista de reforços e inibidores, classificando-os de maneira binária como bons ou maus. No entanto, essa dicotomia não abrange a complexidade dos mecanismos comportamentais, especialmente no tocante ao conceito de aversivo. A compreensão deste termo, longe de ser unilateralmente negativa, revela-se multifacetada e dependente do contexto. 


Aversivo, no contexto comportamental, refere-se a estímulos que induzem um indivíduo a evitar certas ações ou situações. No entanto, essa tendência à evitação não deve ser interpretada como um juízo de valor sobre o estímulo em si. Aversivos podem, de facto, ser fundamentais para a aprendizagem e adaptação ao meio. Por exemplo, o desconforto causado pelo frio motiva-nos a vestir mais camadas de roupa, e a ansiedade diante de uma prova pode impulsionar uma preparação mais meticulosa. Nestes casos, o aversivo desempenha um papel protector e motivador, distante de ser intrinsecamente prejudicial.


A crítica à distinção binária entre reforços e punições é evidenciada ao considerarmos as nuances dos métodos de treino. Acções classificadas como "amáveis" no treino, como mudar a direção quando um cão puxa a trela, estão a introduzir na realidade um estímulo aversivo — a pressão da trela, por exemplo. Este facto destaca a complexidade dos mecanismos comportamentais e desafia a categorização simplista dos estímulos como meramente positivos ou negativos.


A precisão na terminologia é essencial, conforme o texto aponta ao referir que métodos de treino baseados no medo ou na intimidação deveriam ser mais corretamente descritos como "treino coercivo". Esta distinção não é apenas semântica; reflete um entendimento mais aprofundado dos mecanismos comportamentais, onde a aversividade de um estímulo é determinada não só pela sua natureza intrínseca, mas também pelo contexto em que é aplicado e pela percepção do receptor.


A percepção de aversivo como algo negativo é uma simplificação que não faz justiça à complexidade e à utilidade potencial dos estímulos aversivos no comportamento. Uma compreensão completa deste conceito exige uma abordagem matizada e contextual, reconhecendo que os estímulos que nos movem a evitar certas ações ou situações podem, em muitos casos, ser benéficos e até essenciais para a nossa segurança e sobrevivência.


Nesta cruzada pelo entendimento e prática honesta no treino de animais, identifica-se uma complexa rede de ideologias, comercialização distorcida do conhecimento e uma perigosa simplificação de conceitos como reforço e castigo. Esta realidade não é apenas uma batalha de ideias, mas um reflexo preocupante de uma estrutura falha, onde o conhecimento científico é frequentemente distorcido por interesses comerciais e agendas pessoais.


A ideia de que as técnicas de treino se resumem a uma dicotomia entre "boas" e "más" é uma simplificação que ignora a profundidade e a nuance dos princípios comportamentais. Cada animal é único, e o que é eficaz para um pode não ser para outro. O verdadeiro desafio reside em entender e aplicar os princípios de reforço e castigo de maneira ética e eficiente, priorizando sempre o bem-estar do animal.


Entretanto, a situação é complicada pela presença de profissionais que, muitas vezes, possuem mais habilidades de marketing do que conhecimento sólido sobre comportamento animal. Esta realidade não só distorce a percepção pública sobre o que constitui um treino eficaz e humano, desvaloriza o trabalho daqueles dedicados ao estudo e à prática fundamentada em evidências, mas também induz em erro detentores de cães, o que leva a situações de negligência não intencional por parte dos mesmos e abre um espaço cinzento de discussão sobre um eventual crime por parte dos que estão a espalhar informação “científica” que não alinha com as literaturas académicas sobre o tema.


Conclusão

Portugal, com a sua rica cultura e história, mostra que não está imune a estas influências. Projetos inovadores e colaborações promissoras são frequentemente minados pelo egoísmo e pela falta de reconhecimento das habilidades e conhecimentos locais. Esta dinâmica não apenas limita o progresso na área de treino animal, mas também perpetua um ciclo de desinformação e práticas questionáveis.


No centro desta turbulência, encontram-se os verdadeiros amantes e profissionais de animais, lutando para se fazer ouvir no meio de um mar de opiniões infundadas e estudos mal conduzidos. É um lembrete doloroso de que, no final das contas, são os animais que sofrem as consequências dessa confusão.


Mas nem tudo está perdido. Cada profissional tem a oportunidade, e talvez a responsabilidade, de buscar a verdade, de questionar incessantemente e de aprender com humildade. A mudança pode começar com a recusa em aceitar o status quo e leis ideológicas, questionando narrativas prontas e buscando constantemente métodos eficazes e adaptados ao indivíduo, que respeitem a integridade e o bem-estar dos animais. Aceitar ou calar perante este pequeno exemplo de uma proposta que não teve o mínimo de rigor de análise crítica e que apenas considerou a palavra dos verdadeiros autores da mesma, será uma porta aberta para que mais proibições e inquisições surjam.


O caminho para uma prática de treino verdadeiramente ética e eficiente não é simples. Ele exige não apenas conhecimento técnico, mas também coragem, humildade e uma vontade inabalável de aprender e evoluir. No entanto, a busca incansável pela verdade e pelo bem-estar animal é o que pode unir a todos, independentemente de ideologias ou interesses comerciais.


Espera-se que este texto extenso, mas necessário, possa fomentar uma discussão em Portugal, independente das ideologias, onde cada um contribua construtivamente e, no final, todos se dediquem aos que realmente necessitam de nós, os cães.


Nessa jornada, que cada passo seja guiado por uma ciência imparcial, pela compaixão e por um compromisso inabalável com a ética e a integridade, onde cada profissional define claramente os seus limites e competências. A verdadeira medida do nosso progresso não se mede apenas pelo que alcançamos, mas também de como avaliamos e tratamos os seres que dependem da nossa orientação e cuidado. Que este seja o norte que guie cada decisão, cada ação e cada palavra no vasto e complexo domínio do treino animal.


Finalmente, para terminar esta publicação, quero deixar algumas questões para ambas ideologias, e peço que pensem nas mesmas de forma crítica para o vosso aperfeiçoamento não apenas como profissionais, mas como humanos que co-habitam com diversos seres:


  • Eficácia e Proporcionalidade: Como determinar a eficácia e a proporcionalidade de um método de treino, seja ele “positivo” ou “negativo”, em relação ao comportamento específico que se pretende modificar no cão e quais seriam as possíveis alternativas?
  • Transparência e Comunicação: De que forma os treinadores devem comunicar aos detentores dos cães a natureza e as implicações dos métodos de treino utilizados, especialmente quando podem ser extremos? Qual é a importância da transparência neste processo?
  • Observação e Reavaliação: Como e com que frequência os treinadores devem observar e reavaliar a eficácia e o impacto dos métodos de treino, ajustando-os conforme necessário para o bem-estar do cão a curto, médio e longo prazo?
  • Diferença entre Treino e Educação: Existe uma distinção clara entre treinar um cão para realizar certas ações e educar um cão para entender e integrar-se num ambiente humano? Como essa distinção influencia a escolha dos métodos de treino?
  • Papel da Comunidade e Normas Sociais: De que forma as normas sociais e as expectativas da comunidade influenciam a aceitação de métodos de treino que usam? E nos grupos onde estão inseridos? Estas influências são ou deveriam ter um papel significativo nas decisões de treino?
  • Evolução dos Métodos de Treino: Considerando o avanço no entendimento do comportamento canino e da evolução de técnicas de treino, como deveriam os treinadores incorporar novos ensinamentos e experiências e abandonarem algumas das práticas actuais sem resistência?
  • Auto-reflexão do Treinador: Qual deveria ser o processo de auto-reflexão para um treinador ao escolher ou aplicar métodos de treino? Como o treinador pode assegurar que as suas próprias emoções ou preconceitos não influenciam de forma involuntária o treino?
  • Impacto no Ambiente Familiar: Como os métodos de treino afectam a dinâmica geral do lar onde o cão vive? A família e outros animais de estimação devem influenciar a escolha do método de treino?